Crítica | Alérgica a WiFi “diverte, encanta e emociona”

É ponto comum dizer que as redes sociais mudaram a forma como nos comunicamos, nos expressamos socialmente. Já temos uma geração que só consegue se relacionar com o mundo por meio de uma selfie ou um tweet e, graças à situação calamitosa causada recentemente pela pandemia, isso se acentuou nos últimos meses. Claro que tudo isso se reflete na vida afetiva das pessoas, tendo aí seus prós e contras… Mas em muitos casos, o que (ou quem) precisamos em nossas vidas não está nem a um clique na tela de um smartphone: basta olhar pro seu lado.

Lançado originalmente em 2018 nas Filipinas, Alérgica a WiFi (Ang Babaeng Allergic Sa WiFi) aborda justamente esse ponto. Num primeiro momento retratado como um matinê adocicado voltado para o público jovem, o longa escrito e dirigido por Jun Robles Lana foge um pouco dessa linha ao se utilizar inteligentemente desse pano de fundo para fazer sua crítica social, marca registrada do cineasta. No caso, é a reflexão sobre os nossos relacionamentos interpessoais e como as mídias sociais os afetaram.

Nesta fábula moderna, somos apresentados ao introvertido nerd Áries (Jameson Blake). Avesso às redes sociais, ele se apaixona por Norma (Sue Ramirez) desde a primeira vez que a vê em sua faculdade. Incapaz de se declarar seus sentimentos à jovem devido a sua timidez, o garoto passa a nutrir um amor platônico e admirá-la secretamente. No entanto, o convívio entre os dois começa a ficar mais frequente quando Norma começa a namorar ninguém menos que Leo (Markus Paterson), o irmão mais velho de Áries e um dos jogadores mais populares do time de basquete da universidade.

Para completar, a garota começa a apresentar sintomas de uma doença rara: o Transtorno de Hipersensibilidade Eletromagnética (EHS), o que a faz ficar extremamente debilitada quando está próxima de ambientes que tem sinal de WiFi. A situação faz com que a jovem se mude para a casa de sua avó no interior do país para assim escapar de sua sina e iniciar sua reabilitação. Esse afastamento forçado da tecnologia faz com que Norma perceba que a felicidade pode estar nas coisas mais simples e bem mais próxima do que ela enxergava anteriormente.

Em primeiro lugar, é preciso louvar a química vista no trio principal. Sue é extremamente cativante e magnetiza pelo olhar as atenções toda vez em que está em cena. Além disso, a atriz soube flutuar por todas as emoções vividas por Norma ao longo de seu processo de amadurecimento – desde questões como lidar com o novo casamento de sua mãe, a deslealdade de sua melhor amiga Margaux (interpretada por Adrianna So, a Pearl da websérie Gameboys) e seu relacionamento confuso com os dois irmãos Miller. Ramirez consegue transmitir cada sentimento, cada conflito da personagem de forma competente, escapando do estereótipo de protagonista feminina em um drama teen.

Já Jameson nos traz um Áries muito retraído, com poucas expressões. No entanto, o garoto se transforma quando a cena pede um sentimento mais aflorado, principalmente quando contracena com Sue. E a câmera parece estar sempre apaixonada por Blake, procurando constantemente pegar seus melhores ângulos, deixando sua presença ainda mais forte.

E mesmo não tendo os mesmos recursos que seus amigos de tela, Paterson não faz feio e interpreta Leo de maneira honesta. Apesar de parecer duro demais – e mesmo inseguro – em algumas partes do filme, o jovem mostrou potencial ao estrelar uma forte cena na reta final ao lado de Blake. Como sua primeira experiência no cinema, Markus não decepciona e apresenta que é capaz de evoluir cada vez mais.

Vale destacar também a atuação de Angeli Nicole Sanoy (também de Gameboys) como Macha, a melhor amiga de Áries. A jovem atriz joga energia em suas cenas, sendo a voz da sensatez em muitas delas – mesmo quando isso envolve as linhas mais engraçadas do roteiro. Macha é aquele tipo de amiga que todo mundo precisa e Sanoy a defende em tela brilhantemente.

Mesmo soando clichê algumas vezes e descartando alguns personagens secundários sem dar muitas explicações, o tom agridoce do filme o diferencia de outras comédias românticas. Seu roteiro aborda com leveza e doçura os temas propostos, mas sem cair no melodrama visto em produções similares ou mesmo em telenovelas. Ele consegue, juntamente com uma direção precisa, nos transportar para aquele pequeno universo e nos fazer se importar com seus personagens. Somando a isso uma fotografia absurdamente linda, canções que realçam o clima (mérito da cantora Keiko Necesario) e com uma trilha sonora que nos comove, a produção entrega o que propõe com louvor.

Com uma linguagem jovem e universal, o trabalho de Robles Lana e sua equipe transmite uma mensagem importante nos tempos atuais e merece ser descoberto. Ironicamente, Alérgica a WiFi fala sobre conexões reais, onde se deixa o mundo virtual de lado e abraça as pequenas (e preciosas) coisas que a vida oferece. No fim, não vai ser uma publicação nas redes sociais que fará você ter a real experiência de amar e ser amado… É viver intensamente cada minuto que te dá esse privilégio.

Alérgica a WiFi está disponível na Netflix.

Alérgica a WiFi

8.9

8.9/10

Pros

  • Protagonistas encantadores
  • Fotografia exuberante
  • Trilha Sonora
  • História cativante
  • Final agridoce

Cons

  • Personagens secundários pouco explorados
  • Roteiro cai no clichê em algumas ocasiões
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