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Crítica | Soul é “um dos melhores filmes da Pixar e do ano”

Soul é revigorante e profundo sem deixar de ser fofo e atual.

Não restam dúvidas de que 2020 foi um ano aterrador. Para muitas pessoas ele foi o epicentro de uma cadeia de ressignificações e, infelizmente, é difícil ter um panorama positivo em um cenário assim. Se apoiando nessa muleta, o novo lançamento do Disney+, Soul, outrora agendado para ser a grande estreia da Pixar no ano, chega com dois pés de otimismo e, através de uma jornada que bate de frente com o âmago do existencialismo, ensina uma verdadeira lição sobre a vida e propósito.

O longa conta a história de Joe (Jamie Foxx), um músico frustrado que, ao contrário do desejo de sua mãe, está disposto a largar sua recém firmada posição de professor para perseguir uma chance no cenário do jazz nova-iorquino. O único obstáculo é, em decorrência de sua empolgação com a oportunidade de tocar na renomada banda de Dorothea Williams (Angela Bassett), a sua morte.

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Caindo no além vida e assumindo a posição de mentor da rebelde alma 22 (Tina Fey), ele embarca em uma odisséia para retornar ao seu corpo, mas acaba recebendo uma lição sobre expectativas, redescobertas e sonhos.

Antes de tudo, dá para dizer que esse filme é uma obra bem ampla. Como é característica do estúdio, além de conferir traços humanos até mesmo para conceitos, aqui é possível ver uma grande variedade de temas sendo abordados. A princípio, margeando Divertida Mente (Pete Docter, 2015), ele parece retratar um universo cosmológico novo, mais abstrato e que, na percepção das personagens, cria uma noção bem determinística para o seu senso de propósito.

Afinal de contas, 22 precisa achar logo seu caminho para que Joe finalmente possa continuar o seu. Uma sequência em particular exemplifica bem como a Pixar sabe desenhar um universo contemplativo de uma maneira bem orgânica e simples. Quando, depois de fracassarem em sua jornada vocacional, adentram um vasto campo de inspiração, a transição do nirvana para a alienação é explicitada através de uma decadência física que representa essa mudança de espírito. Transcendendo do prazer à agonia, com uma ideia complexa facilitada sem ser “emburrecida” para seu público.

No fim desse mesmo momento, num desespero pela vida, a dupla acaba parando em corpos indesejados. Assim sendo, Joe, em um exercício atípico de sua profissão, se vê obrigado a ensinar como viver para uma alma milenar. Aqui, nesse jogo místico no melhor estilo Se Eu Fosse Você (Daniel Filho, 2006), se desenrola a parte mais significativa do longa.

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Para começar, 22 já recebeu todo tipo de ensinamento proveniente das mentes mais brilhantes, mas é só com a experiência real, com o sensorial que ela realmente encontra o trunfo da vida. É muito tocante a maneira que ele extrapola a reflexão clichê do cidadão que não repara em sua cidade com esse contraponto de inocência ácida. Não é a novidade que se sobrepõe à distração do cotidiano, é o exercício da vida como um todo, os deliciosos acasos que vem com o aprendizado são superados com uma junção entre o instinto e a experiência e isso é simplesmente lindo.

Contudo, essa transformação não ocorre só na percepção da pequena alma rebelde, Joe também aprende muito. Ele passa a enxergar as forças antagônicas de sua vida como as protagonistas de suas próprias, tudo isso por uma ótica que não tinha antes. Se ver resolvendo conflitos e espremendo pensamentos nefastos e sinceros para fora, ainda sendo gentil, mas sem medo da represália, é uma maneira triunfante de superar as adversidades.

Esse apreço pela vida é amplificado pela direção de arte. Vemos uma Nova Iorque que, por mais caricata que seja, parece real. Cada canto, rua, metrô, folha, estabelecimento, tudo tem uma textura, tudo beira o fotográfico, tudo parece palpável e, principalmente quando se sobrepõe a translucidez de sua contraparte espiritual, exalta a experiência cinematográfica.

Como é gostoso ver uma animação que não se preocupa somente em emular uma realidade através de recursos digitais. Os conceitos personificados da ordem, na figura de Jerry (Alice Braga e Richard Ayoade) e Terry (Rachel House), são tão ricos conceitualmente quanto visualmente. Desenhados como linhas retas e sem profundidade, eles se delimitam a seguir as ordens impostas pelo universo, isso está na sua concepção, não é explicado, mas sim percebido. Todavia, as almas carregam consigo uma luz única, fosca ao não revelar a sua fonte de brilho, mas ainda assim cintilante o suficiente para se destacar. Fatores extremamente lapidados que quando postos em harmonia com outros recursos narrativos se tornam ainda mais preciosos.

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Com esse mesmo capricho, o filme tem a sutileza de flexionar muito bem outros recursos. O fato do roteiro se encaminhar para uma nova resolução algumas vezes e, com pontos de virada precisos, manter o espectador colado no seu desenrolar é um exemplo. Faz isso principalmente por ter plena noção de sua coerência e consistência, sendo assim, não gasta rios de tempo e atenção para desenhar um background irrelevante nem uma rotina tediosa que pode ser futuramente trazida no diálogo ou, tão criativo quanto é, no passeio de 22 pelas memórias de Joe.

 O clímax ainda traz uma nova percepção sobre egoísmo. Nem sempre, ao seguirmos o caminho que tanto ansiamos e cumprirmos nossos objetivos, ficamos propriamente realizados ou somos justos tanto conosco quanto com aqueles à nossa volta. Ao mesmo tempo que ela tenta fugir com o corpo renovado do professor, ele se apropria da conquista dela para realizar seu desejo e ignorar seu destino. O que Joe considerava ser sua vocação acaba por apagar seu verdadeiro propósito e esse aprendizado só vem com a perda, nesse caso, transmutada de quebra de expectativa.

No fim, não é como se ele tivesse aberto mão de seu objetivo para ajudar uma alma perdida, ele encontrou em si mesmo o seu verdadeiro propósito, fez as pazes com seu destino e o efeito colateral foi trazer 22 à vida. Talvez, em uma tentativa pífia de sumarizar os amplos temas, o filme seja uma desconstrução da obrigatoriedade de existir pela noção do porque vale a pena existir, rebatendo magistralmente o determinismo que instiga no princípio. Lembrando muito Questão de Tempo (Richard Curtis, 2013), ele traz uma felicidade e poesia que se esconde no simples fato de acordar pela manhã e encarar um novo dia. Soul é revigorante e profundo sem deixar de ser fofo e atual. Um retrato rejuvenescedor sobre a vida que conforta o espectador quanto aos seus próprios rumos. Apaziguador e acalentador, ele mostra que, através de uma fagulha de motivação e paixão, quem constrói o nosso propósito somos nós mesmos.

Soul estreia amanhã (dia 25 de dezembro) somente no Disney+.

Soul

9.5

Nota

9.5/10

Pros

  • Trama sensível e tocante
  • Abordagem firme e sem receio de conceitos complexos
  • Visualmente lindo e significativo

Cons

  • Não ter 25 horas de duração
Total
10
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