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J.K. Rowling, eu sou tão mulher quanto você

J.K. Rowling: a sua fala atua contra nossa dignidade humana. Defender o ódio como mera liberdade de expressão é algo tão conservador quanto fascista.

Manoela Thomas Menandro

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Antes de iniciar este texto, se faz necessário explicitar que o mesmo não tem a pretensão de cancelar a pessoa ou o trabalho da autora J.K. Rowling. E que as palavras a seguir não representam a visão de toda uma comunidade, mas sim o que eu penso.

Nunca fui fã da saga “Harry Potter”. Nunca li nenhum livro sequer da autora e, até semanas atrás, não conhecia seu trabalho enquanto ativista nem nada muito além sobre sua vida pessoal. Porém, há alguns anos, eu tenho conhecimento de seus posicionamentos ideológicos acerca especificamente de pessoas transgênero. 

Não havia comentado publicamente sobre, pois preferia ler primeiro o que ela tinha a dizer antes de proferir julgamentos supostamente precipitados. Nas últimas semanas têm surgido muitas publicações repletas de xingamentos com teor misógino destinados a atacar a mesma, sob a justificativa do combate a sua transfobia. Em resposta, a autora lançou nas redes sociais uma carta aberta, explicando mais sobre as suas visões e vivências.

Eu li a tradução completa da carta. E não foi fácil.

Entendamos: questionamentos são sempre válidos. A J.K. não deve ser silenciada enquanto a mulher que é. Mas sua carta em diversos momentos não nos acolhe nem nos salva, como ela parece insistir em pensar. Vejo problemas na fala dela, sim. Na ausência de referências confiáveis e minimamente imparciais, na completa ausência de empatia ao usar determinados termos que são ofensivos. Um exemplo é quando para ela é tão natural citar outras mulheres como feministas, enquanto que nós (mulheres trans e travestis), somos chamadas de “transativistas” todo o texto. Nem de mulheres efetivamente nós somos chamadas. O tempo todo nós somos algo como “um transexual auto identificado mulher”, em tradução livre. E quanto aos homens trans serem acolhidos, segundo sua visão, mas sem deixar de serem retratados como mulheres lésbicas que foram seduzidas pela identidade de gênero masculina a fim de fugirem da misoginia e da homofobia? 

A sua fala atua contra nossa dignidade humana.

Eu particularmente também tive problemas com o conceito do sexo biológico da forma como ele é mencionado na tal carta. A maioria das pessoas sequer fez um exame para saber seu cariótipo e assim poder determinar o seu sexo, baseado na quantidade de cada cromossomo. Fora que essa fala é excludente com pessoas intersexo. O que sabemos que é fatídico é: nasceu fisicamente com pênis funcional, é designado homem, criado e lido enquanto homem. Nasceu com vagina, é designado mulher, criado como mulher socialmente. 

A autora menciona ainda casos onde homens mal intencionados agiram de má fé, alguns chegando a tentar abusar de outras pessoas ou até mesmo conseguindo. Infelizmente estes são dados que não podemos ignorar. Mas ora, se afinal de contas existem episódios onde mulheres denunciaram injustamente homens inocentes de abusos ou agressões que não ocorreram, deveríamos, portanto, invalidar a Lei Maria da Penha? Não, porque estes casos são exceções, e não a regra.

Antes de destilar ódio em cima de quem pensa dessa forma, eu procuro sinceramente entender as suas razões. Se eu a punisse, esse ato não ressocializaria nem desconstruiria seu viés ideológico discriminatório pessoal. 

J.K. é uma pessoa nascida com vagina, e socializada como mulher cisgênero, que é quando a pessoa está em conformidade com o gênero que lhe foi atribuído ao nascimento. Ela é uma mulher que já sofreu abusos, como fez questão de pontuar. Eu não sei como é ter especificamente essa vivência, ainda que eu seja também uma mulher que já foi vítima de violência doméstica.

Até meus 24 anos de idade eu vivi como uma pessoa que é lida como homem branco mediano. Tive todos os privilégios que me foram dados, mesmo sem que eu os pedisse ou quisesse usufruir. Aos 24 anos eu decidi abdicar de tudo isso para enfrentar o meu processo pessoal de transição de gênero. Ser mulher hoje é a minha identidade. Isso se reflete na minha vivência cotidiana, na minha resistência, e não está num sentimento ou auto declaração. É exatamente o que eu vi após me reconhecer como sou hoje, no espelho, e por dentro também. E que todos tenham a certeza de que eu não sou menos biológica do que uma mulher nascida com vagina. A mulher que não menstrua, que não tem útero, que não engravida, nenhuma dessas não é menos mulher. 

Eu sou mulher, tão verdadeira quanto todas as outras. No movimento feminista, eu tenho que brigar o tempo todo para ter as minhas pautas incluídas e me fazer respeitar. A vitória do patriarcado, da opressão de gênero e da normatividade se erguem quando ao invés de lutarmos juntas, as cis e as trans, nos digladiamos por divergências teóricas.

As pessoas que estão sob o guarda-chuva transgênero, e que ousam tentar ter o mínimo de liberdade para se aceitar e viver como se é, são constantemente excluídas, humilhadas, perseguidas e mortas. Não estamos aqui promovendo ativismo negacionista a distinções biológicas. 

Não estamos cooptando crianças que não performam feminilidade ou masculinidade, de acordo com suas designações sociais, e dando hormônios a elas. Não estamos aqui para apagar ou competir com mulheres em geral, apagando suas corporalidades e pautas. Não roubamos protagonismos. Não somos doentes.

J.K. Rowling: a sua fala atua contra nossa dignidade humana. Defender o ódio como mera liberdade de expressão é algo tão conservador quanto fascista.

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