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Resenha

Resenha: “O Desaparecimento de Josef Mengele”

Olivier Guez envereda o leitor na odisseia da fuga de um dos maiores assassinos de Auschwitz.

Thaís Rossi

22 de agosto de 2019

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O Desaparecimento de Josef Mengele é uma história de não ficção escrita pelo jornalista francês Olivier Guez e publicada pela editora Intrínseca em julho deste ano. O livro recebeu o prêmio Prix Ranaudot em 2017. O escritor também é responsável pelas obras “L’impossible retour” e pelo roteiro do filme Fritz Bauer, que lhe rendeu um prêmio alemão de melhor roteirista.

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Antes de começar essa resenha é preciso explicar quem foi Josef Mengele.

O “Anjo da Morte”, como era chamado, era formado em medicina e por isso foi contratado em 1937 como pesquisador assistente pelo Instituto de Hereditariedade, Biologia e Pureza Racial da Universidade de Frankfurt. Uma vez lá, Josef se tornou pupilo de Otmar Freiherr von Verschuer, cientista especialmente interessado em estudos com gêmeos — e defensor fervoroso das políticas de “higiene racial” instituídas por Hitler.

Foi recrutado pela SS (Schutzstaffel) em 1938 devido à iminência da guerra, quando lutou em algumas batalhas. Ele só recebeu a incumbência de trabalhar em Auschwitz em 1943. Ao chegar no campo, tornou-se responsável pelas revistas que decidiam quem ia para o campo de trabalho e quem ia direto para as plataformas de morte.

“As câmaras de gás funcionavam a todo vapor; Irene e Josef banhavam-se no Sola. A SS queimava homens, mulheres e crianças vivos nos fossos; Irene e Josef colhiam mirtilos. As chamas irrompiam dos crematórios; Irene chupava Josef e Josef possuía Irene”

Doutor em medicina, antropologia e genética, Josef Mengele se envolveu no estudo da melhoria da “raça ariana” por meio da eliminação dos agentes que ameaçassem empobrecê-la. Utilizou-se de castração em alguns casos e em outros simplesmente exterminou. Esses agentes eram negros, homossexuais, ciganos, indivíduos com qualquer tipo de deformidade e, evidentemente, judeus.

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Assim como seu mentor, Mengele se interessava pela genética de gêmeos – em grande parte crianças – e com frequência separava os pares e matava um, para ver como o outro se sentiria, além de realizar experimentos bizarros que iam de arrancar olhos a introduzir fluidos corporais de um gêmeo no cérebro do outro.

“Bem-humorado, seu semblante alegre mascara sua crueldade. Encontrar tanto cinismo surpreende, mesmo no campo… Doutor Mengele é um nome mágico… A pessoa que todo mundo mais teme no campo. Bastar ouvir sua voz e todos tremem”

Não demorou muito para que Josef se tornasse o médico chefe do campo, concedendo-lhe a chance de expandir seu espaço, o temido bloco 10 de Birkenau, e seus estudos que passaram a incluir anões, gigantes, ou qualquer pessoa com deformidade e deficiência física.

Quando os soviéticos tomaram Auschwitz em janeiro de 1945, o “Anjo da Morte” já havia escapado. Josef Mengele conseguiu fugir das forças soviéticas e norte-americanas com caixas e mais caixas contendo suas pesquisas por territórios alemães ocupados. Por causa disso, trabalhou em fazendas até chegar a Gênova em 1949. De lá, o protagonista fugiu para a Argentina, onde O Desaparecimento de Josef Mengele começa a contar sua sina.

 “Todo mundo lucrou com o sistema, até ocorrerem as destruições dos últimos anos de guerra. Ninguém protestava quando os Judeus ajoelhados limpavam as calçadas, e ninguém abriu a boca quando eles desapareceram num piscar de olhos. Se o planeta não tivesse se unido contra a Alemanha, o nazismo continuaria no poder”

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Na época, a Argentina era um grande refúgio nazista. Escondido atrás de vários pseudônimos, o ex-médico dos horrores acreditava em começar uma nova vida em Buenos Aires. Embora tenha chegado quase miserável no país, ele conseguiu se reerguer ao realizar abortos clandestinos em filhas e amantes de magnatas, através de aliados nazistas fanáticos que conquistou usando a fama de seu nome e a influência da sua família, que era respeitada e amada na Alemanha.

Após a alguns anos prósperos que resultaram na expansão do negócio de máquinas agrícolas de sua família para a América do Sul, as acusações das atrocidades cometidas em Auschwitz começam a vir à tona e Josef foi obrigado a fugir para o Paraguai. Logo depois ele vem parar aqui, no Brasil, onde viveu por anos em uma vida miserável, se comparada aos seus anos de luxo, até sua morte intrigante em 1979.

“Mengele, o funcionário modelo das usinas da morte, o assassino de Atenas, Roma, Jerusalém, pensava ter escapado do castigo. Mas ei-lo entregue à própria sorte, escravo da própria existência, esgotado, moderno Caim vagando pelo Brasil. Começa agora a descida aos infernos de Mengele”

O primeiro ponto a ser observado na história é a facilidade de Josef em cobrir seu rastro, mesmo sendo um dos homens mais procurados do mundo. Com uma leitura objetiva, porém cheia de detalhes, Guez nos mostra que o dinheiro e as convicções ideológicas eram maiores e mais importantes do que fazer justiça pelas milhares de vidas ceifadas pela raiz racista e elitista do Nazismo. Para os aliados, Josef era um anjo ariano, um herói que devia ser protegido a qualquer custo, mesmo que isso destruísse suas vidas.

Apesar de ser arrogante e intragável, Josef conquistou um apanhado de velhos nazistas ambiciosos. Eles ficavam à sua disposição, prontos para servirem de escudo humano para o médico, caso fosse necessário.

Durante a leitura é possível também perceber o cuidado e a sensibilidade do autor ao descrever os sentimentos de Josef Mengele; de sua presunção até os momentos de pavor. Embora definhasse no medo, nunca sentiu remorso, não desenvolveu um pingo de compaixão sequer por suas vítimas, ou pelos seus aliados. Tudo o que fazia era para benefício próprio e em nome de suas convicções. Ser um fugitivo no fundo do poço não melhorou em nada seu caráter elitista e preconceituoso. Josef sabia o que havia feito e sentia orgulho disso.

Em algumas partes é necessário fazer pausas, pois o detalhamento do autor na descrição das situações vividas pelas vítimas causa um impacto dolorido no leitor, porém é necessário.

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Diante dos relatos, é possível perceber que, embora o médico tenha passado por um inferno mental e uma vida solitária e fria, tudo isso não foi o suficiente para que ele pagasse por suas atrocidades. Os sobreviventes do seu banho de sangue viveram anos conscientes que seu torturador ficou livre por aí, enquanto eles tiveram que lidar com os rastros de horror deixados pelo seu bisturi.

Olivier Guez deixou bem evidente que, apesar de nunca ter sido pego e respondido por seus crimes, o médico viveu sua própria reclusão às sombras da sociedade, vivendo em um inferno repleto de fantasmas passados e uma paranoia eterna, sufocado pelo seu temor de ser preso. A maneira como o autor desconstrói a imagem autoritária de Mengele e vai nos mostrando sua vulnerabilidade deixa a leitura cada vez mais interessante e faz com que queiramos devorar a história para saber até onde vai a humanidade do “Anjo da Morte”.

“Europa, vale de lágrimas.
Europa, necrópole de uma civilização aniquilada por Mengele, e os seguidores da Ordem Negra da caveira, ponta envenenada de uma flecha desferida em 1914″

 

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