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Fernanda Fernandes

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Marina Vidal é uma mulher que corre com os lobos. Em “Uma Mulher Fantástica”, obra de 2017 dirigida por Sebastián Lelio, Daniela Vega interpreta Marina, uma mulher transexual que precisa enfrentar a perda do ex-companheiro e a família extremamente preconceituosadele.

O ponto mais interessante da trama é como o roteiro consegue pontuar desde violências explícitas até aquelas que acontecem verbalmente, inclusive, as que acontecem sem intenção. Outro fator que chama a atenção é que Daniela Vega também é uma mulher trans, ou seja, a preocupação com a escolha da atriz acontece de forma que ela pudesse viver uma história que já estava dentro dela.

O Brasil é o país que mais mata a população trans no mundo, segundo a ONG Transgender Europe (TGEu). Em 2018, foram 163 casos de assassinato de pessoas trans no país, de acordo com a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais). A expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil é de 30 anos, segundo o IBGE em 2018. Dentro deste contexto, conhecer este filme chileno se torna necessário para entender e lutar contra a transfobia em um dos países mais hostis para a população trans.

O filme começa com a sensação de um filme romântico antigo, mas, que rapidamente se transformará em um pesadelo para a protagonista. Seu companheiro, Orlando Onetto, vivido por Francisco Reyes, tem um aneurisma e falece. Marina se vê encurralada e a primeira cena que violenta a personagem se dá no hospital, depois da protagonista sair para caminhar e ser trazida de volta pela polícia.

O policial a ouve responder que se chamava Marina Vidal e a pergunta se era um pseudônimo. Mais tarde, entende-se que ela ainda não tinha recebido os novos documentos e por isso não queria apresentar a identidade. No entanto, somente a pergunta em si é um ato violento mesmo que pequeno. Do tamanho daquele bullying que algumas pessoas sofrem no período escolar e que machuca.

O personagem ainda se refere a Marina pelo pronome masculino e nesse momento chega Gabo (Luis Gnecco) e a defende. No entanto, mesmo na narrativa do filme Gabo passa a ser silenciado pelos outros personagens por ser minoria entre eles. Geralmente é o que se passa com a população cis que tenta defender as pessoas trans, mas que como é uma minoria também acaba sendo calada. Gabo sou eu. Gabo talvez também seja você.

A cena mais interessante do filme é completamente silenciosa e se passa quando Marina está caminhando pela rua e começa a lutar contra o vento para conseguir continuar caminhando. Naquele momento, o sentido do filme é apresentado, a luta da população trans na vida para continuar caminhando e manter-se viva. Não só Marina como toda a população trans e qualquer minoria corre com os lobos.

As violências contra a personagem vão se intensificando cada vez mais, principalmente, quando a ex-esposa de Orlando, Sonia (Aline Kuppenheim), nega um direito básico a Marina: o de comparecer ao velório e funeral de seu companheiro. A justificativa é a presença da filha dela de 7 anos no evento. Sonia ainda diz a ela que não sabe o que ela é e fala que ela é uma perversão.

No caminho ao hospital, Orlando cai da escada e por este motivo a polícia chega a investigar o caso, sendo que, a personagem de Daniela Vega disse no hospital o que tinha ocorrido. Não é suficiente para uma mulher trans. A detetive Adriana (Amparo Noguera) exige que Marina seja examinada para constatar que ela não apresenta lesões. Ela é fotografada e a percepção é de completo abalo, vulnerabilidade e exposição, principalmente ao ouvir o médico legista cochichando sobre como chama-la. 

O personagem mais ensurdecedor é Bruno (Nicolas Saavedra), filho de Orlando. Após a morte do pai, Bruno expulsa Marina da casa de Onetto e leva Diabla, a cadela que Orlando tinha dado para Marina. Em seguida, Marina tenta comparecer ao velório de seu companheiro do qual é expulsa e no caminho de volta, Bruno e alguns colegas passam perto dela de carro, a pegam e colocam no carro. Lá, ela ouve todo tipo de xingamentos enquanto Bruno dirige e um deles enrola fita adesiva na cabeça de Marina para que ela não falasse. Minutos depois ela é largada num beco como se nada tivesse acontecido e eles vão embora.

Curiosamente a força de Marina vem da voz. As aulas de canto lírico com o professor dela (Sergio Hernandez) são um refúgio para a personagem, sendo algo, literal e metafórico do ponto de vista crítico já que a população trans é constantemente silenciada pela sociedade. O último ato do filme mostra a protagonista retomando as rédeas de sua vida, conseguindo se despedir de Orlando e recuperar a Diabla. Podendo finalmente seguir a sua vida. 

Uma das últimas cenas do filme é de Marina cantando diante de uma plateia tornando-se a cena mais bela da obra. Simbolizando o momento em que a personagem, e toda a população trans, ganharão voz no futuro. “Uma Mulher Fantástica” é uma luta que traz um vislumbre de esperança.

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